6 de set de 2016

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Era manhã de domingo. Encontrava-se ele em sua casa de campo. Sentado numa poltrona, na varanda, contemplava a natureza. No jardim, havia muitas flores. Um pé jamelão trazia-lhe doces lembranças do seu tempo de criança. Um pé de amora ofertava frutos dulcíssimos. O cajueiro de frutos sem iguais. As goiabeiras, o pé cambucá, as mangueiras, o pé de jambo a colorir a terra de lilás. E o pé de seriguela …. os galhos arriavam cheios de frutos maduros. Do pé de carambola seus frutos transformavam-se num doce de estrelas. Havia muito mais … Em meio àquele cenário, solenemente casais de pavão passeavam. Em harmonia viviam perus, patos, gansos e galos a cantar a melodia da alvorada, a qual repetiam ao longo dia. Os passarinhos entoavam doces melodias de amor.Por entre os montes, um riacho serpenteava em direção ao oceano, fertilizando o solo à margem de seu leito.Dentro de casa, Nide preparava um delicioso café da manhã que seria servido assim que todos estivessem sentados à mesa. Faltava apenas Bia, a filha dele que ainda se arruma. Estava acertado uma caminhada matinal pelas redondezas.Em meio aquilo tudo e no aguardo do desjejum, observou uma sabiá a fazer voos rasteiros em sua direção, sobrevoando-lhe a cabeça.No galho de cambucá, outra sabiá atentamente a tudo observa.Olhou para cima e viu um ninho feito no espaço entre o ripão e o telhado. Dentro dele dois ou três pássaros. Um deles ficou à beira do ninho. A sabiá alimentava os outros dois. Ele ficou preocupado com a possibilidade de o pequenino cair e se machucar. A altura entre ninho e chão era de dois metros e meio, mais ou menos. Pensou em fazer qualquer coisa que impedisse o inevitável, mas preferiu não interceder. De repente, o cheiro de café espalhou-se pelo ar e veio o chamado. Mesa posta, familiares sentados. Servido foi bolo de aipim, de tapioca e de milho. Mingau de milho verde, canjica e pão. Ronaldo, seu compadre e cunhado, se fartou. Com o pensamento voltado para a sabiá, retornou à varanda. Para sua surpresa, no chão, viu aquele passarinho que estava à beira do ninho. Frágil, indefeso, penugem esparsa, tentando fazer curtos voos por dentro da varanda. Não se conteve. Delicadamente, buscando protegê-lo, conseguiu levá-lo de volta ao ninho. Os pais, desesperados, do cajueiro observavam interferência do bicho homem. Um dele voou de onde se encontrava para o ninho e ficou como se a conservar com o seu filho. Todos presenciaram a cena. Na varanda, ficaram por cerca duas horas na expectativa do que pudesse acontecer. Nada aconteceu, salvo as idas e vindas da sabiá sempre a alimentar seus filhotes. Resolveram, então, fazer a caminhada, conforme combinado. Quando do retorno, já por volta do meio dia, o pequenino estava fora do ninho, novamente no chão e com o mesmo propósito: voar. Ele pensou em levá-lo de volta, como antes o fizera, mas seu cunhado o dissuadiu. Ponderou para que observassem juntos o que ocorreria.Então, fazendo pequenos voos conseguiu chegar ao pé de Cambucá. Do pé de Cambucá voou para o pé de seriguela. Daí, para o galho do cajueiro. Em seguida para a caramboleira. Nessa trajetória acompanhado foi, à distância, pelos pais. A certa altura foi deixado por seus pais e voou na imensidão do azul. Ficou ele a pensar o que poderia acontecer ao pequenino pássaro, desde o badoque até a ação do predador natural. Nada, entretanto, podia fazer. O destino estava selado: voar. Tudo que pudesse ou que viesse a acontecer com aquele pássaro fazia parte ou faz parte dessa história que se chama vida. Veio o almoço e descanso vespertino. À noite, pirilampos faziam breves clarões e os grilos catavam em festa.Logo de manhã retornaram à cidade. Anos depois, perdido em seus pensamentos, sua filha, ainda adolescente, sem qualquer experiência de vida, veio ao seu encontro e lhe disse: pai, tenho uma surpresa. Qual? Questionou ele. Ela lho respondeu com alegria contagiante: passei na seletiva do intercâmbio. Vou para Taiwan, país que fica ao sul da China. O Senhor deixa? Naquele instante veio em sua mente um poema do incomparável Khail Gibran, “ Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós e embora vivam convosco, não vos pertencem”. Lembrou-se, então, do voo da sabiá. Disfarçando com um sorriso o seu medo e não contendo a lágrima que rolava em seu rosto, abraçou-a afetuosamente, sem nada dizer!

 AUTOR DRº  ANTONIO CARLOS DE SOUZA HYGINO 
JUIZ DE DIREITO

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